Igreja da Comunhão

Aqui não jaz PDF Imprimir E-mail
Autores:

Hamecari – Dirceu Pereira

Um passageiro consciente e responsável é um sujeito precavido e prudente que compra sua passagem antecipadamente e providencia seu passaporte e visto de entrada no país de destino o mais rápido possível.

Nada, porém, pode garantir se, realmente, irá chegar a usufruir do custo já pago, mas, no que depender dele, deve fazer tudo para o êxito do embarque quando chegar a hora. Malas prontas, passagem em mãos, passaporte, visto, dinheiro de reserva, atestado de saúde, comprovação do local em que irá se hospedar, motivo da viagem, etc.

Assim será para o leitor deste livro que estiver preparado, que for precavido, prudentemente consciente, e sedento pelo despertar do sentido da vida, com a seguinte diferença: “este voo”, com toda certeza, chegará ao seu destino final, independentemente das turbulências, desvio de rotas, ameaças de sequestro, falta de combustível, mal súbito, enjoo, etc.

Sei que nem todos desejam ou podem embarcar, mas todos que assim o fizerem terão momentos de revelação, contentamento, amparo, segurança, assim como confronto e apelo a uma tomada imperativa de decisão.

Os capítulos serão representados por ruas e cada parágrafo por uma quadra. Não se engane achando que algumas frases foram repetidas sem terem algum objetivo. Há um sentido para isso... Você descobrirá.

Todos carregam na alma desde o nascimento/morte as possibilidades da morte/Vida e da morte/Morte.

O tempo corre por entre os dedos como ouro, sem que a palma da mão da grande maioria recolha tal tesouro. Quanto mais a humanidade cresce, menor fica pelas atitudes com as quais interage entre si e com a natureza.

Espero com toda a minha alma que durante o voo você deseje levar outras pessoas a realizarem a mesma viagem que, uma vez começada, será praticamente impossível abortá-la.

Surgindo dificuldades aperte o  botão  de  emergência. “Ele” irá, na medida da urgência e solicitação, ajudá-lo.

Aperte o cinto, as turbinas já foram aquecidas... Lá vamos nós!

Boa viagem! Encontrar-nos-emos, com certeza, no desembarque... “Se Deus quiser”.

Hamecari

...........................................................

 

Prefácio

“Aqui não jaz” é uma obra inspirada onde a autora constrói uma ponte entre os paralelos da realidade, que poucos vivem, e da que muitos desconhecem, perdendo com isso a oportunidade única de vivenciá-la.

O homem é posto a viver em um condomínio que se assemelha a um cemitério onde os “personagens-túmulos” ganham “vida” própria interagindo com outros elementos fúnebres revelando de forma filosófica e humorada, a cada diálogo, o “estado de morte” que a natureza humana esconde e carrega dentro de si. É como se a sua natureza carnal imperfeita, decaída, conversasse consigo mesma sem que a sua parte divina tomasse consciência desses diálogos. Uma alma corrupta, consciente num corpo vivo com um espírito que dorme. Só o despertar espiritual inverterá tal situação.

É o planeta Terra comparado a um cemitério onde, por entre suas estreitas ruas, as deformidades de caráter são exumadas a todo instante, revelando a alma daqueles que não possuem a vida, em seu viver.

Você será convidado a percorrer por dez ruas. Espero que elas não lhe sejam familiar ou convidativa a ponto de você desejar fixar residência nelas. Caso tais ruas já façam parte do seu interior como ecos de um caráter a ser regenerado, essa é uma boa oportunidade para saber como escapar delas, deixando de ser um de seus moradores.

Conheça o condomínio onde não se é convidado para entrar, mas, uma vez lá, é impossível fugir.

Examine, cuidadosamente, este livro desejoso de encontrar o “Caminho”, a “Porta” e a “Revelação” que irão tirá-lo das trevas e despertá-lo para o mundo da “Luz”.

Os mortos são desprovidos da consciência de que estão mortos. Você é convidado a um confronto entre “o que se crê”, porque foi ensinado a crer, e o que “simplesmente é”.

O passado, presente e futuro fundem-se em um momento apenas - “a sua decisão”.

A morte você já tem desde que nasceu. Sair dela com “vida” é uma escolha só sua! O que você decide? Boa leitura!

Dirceu Pereira

 

....................................................

 

Agradecimentos

Nossos agradecimentos ao Autor dos autores, Professor dos professores, Desenhista dos desenhistas e Editor dos editores: “O Criador e Senhor Deus em quem tudo se originou, subsiste e para quem tudo retornará.”.

Nosso respeito e reconhecimento pelo grande trabalho realizado pelo Rev. Antonio de Pádua Galvão Ferrari como revisor, pelo amigo Douglas Capatto como desenhista e à editora Danprewan por nos fazer acreditar na possibilidade desta obra vir a existir.

Nosso desejo é que você leitor seja impactado e tenha na sua vida diária uma metanoia tal que aquilo que Deus escreveu como plano em sua vida torne-se real.

Os autores

 

 

...................................................

 

“É mentira que a vida é curta! Ela é eterna!

Curta é a morte...

que deve ser abreviada o máximo possível!”

(Autor Desconhecido)


...........................................

Rua 1 – Rua do Ego

1 - Lema: “A motivação na maioria das discussões é para ver quem está com a razão e não onde e como encontrá-la.”.

2 - “Declaro aberta a Assembleia extraordinária do Condomínio “Morada dos Mortos”, localizado no “Mundo das Sombras”, convocada com urgência dado à gravidade do tema que será logo mais apresentado.”.

3 - “Todos em seus devidos lugares.”, disse aquele que presidia o evento.

4 – “Apesar de nunca termos tido uma só ausência nas convocações anteriores, faremos como de praxe, a chamada dos presentes.”. “Aliás, não haveria motivo que justificasse uma falta, pois quando se é convocado é para cá que todos vêm mesmo não sendo esse o desejo da alma ou por outro lado, fuga do corpo”.

5 – “Para quem não me conhece, sou o Administrador deste condomínio nunca tido outro antes de mim, assim como é impossível que algum dia eu venha a ser substituído.”.

6 – A Assembleia havia sido convocada tendo por base o pedido do encarregado mais antigo do condomínio, o Sr. Pacífico, encarregado das diversas atividades inerentes ao lugar.

7 - Feita a chamada, os números confirmaram a presença dos convocados, menos de um. Foi lida a ordem do dia que constou dos seguintes assuntos:

1º) falta de condições de trabalho em decorrência das desavenças e intrigas entre os moradores antigos e os novos ocupantes. Como argumento para isso o Sr. Pacífico sugeriu que a mesa diretória lembrasse a todos o regimento interno original que apregoava que o condomínio devesse ter um ambiente calmo, sossegado, sem praticamente nenhuma alteração no dia a dia, para que o mesmo se justifique e mantenha sua existência.

2º) Convocação para a grande Assembleia única.

8 - “Esta convocação, explicou o Administrador, tem por base a seguinte diferença: todos aqui estarão presentes lá, mas nem todos que lá estiverem receberão a mesma sentença”.

O Condomínio “Morada dos Mortos”, no “Mundo das Sombras”, é composto por:

a) “mortos” que ainda têm a chance, despertando, de renascerem;

b) “mortos-vivos” que ainda vivem no corpo, porém já foram despertados e renasceram para a vida, estes não sofrerão o julgamento porvir.

c) “mortos-mortos”, estes não fazem mais parte do condomínio, pois desprezaram a oferta do renascimento e agora lhes resta o dia do julgamento final;

d) “vivos-mortos” que decidiram pelo despertamento e renascimento já não vivem, fisicamente, nele, aguardam no não-tempo, o final dos tempos.

9 - Como já fazia parte do cerimonial, foi lido o nome das famílias, consideradas por eles mesmos, as mais proeminentes, ou seja: “Mausoléus”, “Criptas”, “Jazigos”, “Túmulos”, “Sarcófagos”, “Covas-Rasas” e os “Ossuários”.

10 - Era uma tarde diferente de tantas outras, com céu pincelado de cinza, vento não tão forte, mas o suficiente para assobiar pelas frestas das janelas do grande edifício que acabara de receber e acomodar os convocados.

11 - “Os dias nascem, os dias morrem”, dizia um dos epitáfios logo na porta do condomínio. Mal sabiam os moradores que respiravam a morte desde que lá chegaram. “O tempo é finito, não passa de uma ilusão.”.

12 - O edifício onde estava sendo realizada a Assembleia ficava localizado na entrada principal do condomínio.

13 - A primeira rua a ser avistada era a Rua do Ego.

14 - Era a primeira rua do condomínio, assim como é o primeiro sentimento a se manifestar na natureza humana.

15 - Desde cedo o homem traz consigo essa semente e a desenvolve dia a dia nas interações familiares e sociais. Onde houver terra fértil e a oportunidade de chamar a atenção, ele é capaz de roubar a cena e fazer o mundo girar ao seu redor, satisfazendo suas próprias vontades e interesses. Engana-se quem pensa que mesmo o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

16 - A casa de esquina na Rua do Ego não tinha vizinhos. Para o morador ninguém era merecedor de compartilhar os espaços em sua volta. Não recebia visitas, não dava festa, nem sequer em sua espaçosa porta de entrada podia ser visto o tradicional tapete “sejam bem-vindos”.

17 - Enquanto isso, na Assembleia, tudo parecia propício, pertinente, assustador, intrigante, despertando os mais diversos sentimentos, pensamentos e motivações nos paralisantes corações dos presentes.

18 - Cada rosto trazia uma expressão diferençada dos demais. Os que se esforçavam tentando encobrir os sentimentos eram os que mais revelavam os labirintos da alma. Em cada olhar uma espada, um apontar de dedos, um lança-chamas prestes a devorar quem, desavisado, ousasse confrontar.

19 - Mesmo nos mais calados se podiam ouvir sussurros, gemidos, súplicas e alegações de como era injusta a convocação a que foram submetidos.

20 - “Geralmente as pessoas só reconhecem a temperatura das chamas após terem desperdiçado o tempo que ganharam brincando com o fogo”. Então “a dor aumenta, as escamas caem e o arrependimento interesseiro se manifesta, na maioria das vezes para se verem livres das consequências, e, traídos pela própria cegueira, desnudarem a miséria contida na alma.”.

21 - Como o silêncio foi substituído pelo murmúrio dos presentes, fez-se necessário que o Administrador, em posse de seu martelo e autoridade, fizesse reinar, novamente, a ordem.

22 - Senhor Administrador: — Atenção, atenção, ninguém está aqui sem ter tido algum dia o direito de perguntar, assim como não sairá daqui omisso da responsabilidade de responder. Tão logo sejam inquiridos a falar ou desejarem interromper, havendo dúvidas, queiram acenar com uma das mãos e serão prontamente atendidos.

23 - Por algum instante ninguém se atreveu sequer mover-se. Eram olhares curiosos, desconfiados, e até odiosos, além de bocas silenciosas...

24 - Todos queriam falar, principalmente, se a fala lhes permitisse reclamar, mas...

25 - O Administrador vendo que a reunião se estenderia além do tempo estipulado, achou por bem dar uma pequena ajuda. — As pessoas costumam desejar a eternidade quando, pelo egoísmo e ambições, não abrem mão da perda. Na verdade, perdem aqui e na eternidade o que desperdiçaram no tempo que lhes foi outorgado.

26 - Senhor Administrador: — O tempo passa por vocês, e vocês passam pelo tempo. O que sobra disso é o que depois do tempo jamais passa.

27 - Poucos foram os que entenderam a frase, mas um entre os presentes foi o único que levantando uma das mãos ganhou coragem o bastante para, pronunciando-se, parecer inteligente.

28 - Foi grande a admiração entre todos os convocados, se tratando de quem ousou tal atitude.

29 - Senhor Administrador: — É dada a oportunidade de palavra para a senhora Cova-Rasa.

30 - Senhora Cova-Rasa: — Infelizmente o motivo alegado é verdadeiro, mas a culpa é dos Túmulos e Mausoléus, pois são eles que vivem a me provocar, na tentativa de me humilharem.

31 - Senhor Túmulo: — Tadinha! — disse zombando.

32 - Senhor Mausoléu: — Pobrezinha! — imitou ironicamente.

33 - — Por favor, respeito! Senhor Túmulo, o que tem em sua defesa? — falou o Senhor Administrador.

34 - Senhor Túmulo: — A única culpa é da Cova-Rasa. Ela não presta serviço que se preste; e por não ter custo algum, acaba roubando nossos hóspedes.

35 - Senhor Administrador: — Continue...

36 - Senhor Túmulo: — Nós somos de vários tipos e modelos para atender às necessidades dos ocupantes. Isso envolve investimento e custo. Além do mais, somos profissionais e atendemos conforme contrato pré-estabelecido. Fornecemos conforto, privacidade, higiene e conservação.

37 - Senhor Administrador: — Em que o senhor sente-se diferente dela?

38 - Senhor Túmulo: — Veja bem, Senhor, a Cova-Rasa não tem preparo algum, não se reveste de nenhum material para proteger o morto, devora-o sem cerimônia, contaminando-o e diminuindo o tempo de hospedaria para obter mais hóspedes. Não é à toa que é da família dos Sarcófagos, os chamados “comedores de carnes”.

39 - Senhor Sarcófago: — Alto lá, não vou permitir que denigram o bom nome da minha família. Peço uma retratação.

40 - Senhor Túmulo: — Se forem “retratados”, aí sim, é que a coisa vai ficar feia! A foto vai ficar horrível!

41 - Foi uma gargalhada geral... Quanto mais o Administrador pedia silêncio, mais forte era a onda de risos que tomava a todos.

42 - Senhor Administrador: — Silêncio, silêncio...

43 - Por fim, acalmados os ânimos, prosseguiu-se a Assembleia.

44 - Senhora Cova-Rasa: — Tá vendo? — falou olhando para o Senhor Administrador — Quem é que pode me dizer quem contamina quem?

E vocês, Túmulos, acham que o fato de se enfeitarem um pouco lhes dá o direito de cobrar uma fortuna pelo serviço? De que vale uma suíte para quem está morto? E o que dizer então dos Mausoléus?

45 - Senhor Mausoléu: — O que vem de baixo não me atinge, criatura. Mas já que fez referência a minha digníssima pessoa, quero deixar registrada a minha indignação: sempre que sou visitado, ou recebo um novo ocupante, tanto a Cova-Rasa, como o Túmulo ficam lançando olhares de inveja e cobiça em minha direção. E se pudessem, garanto, invadiriam a minha privacidade. Isso me incomoda muito.

46 - Senhora Cova-Rasa: — Quem manda ser “majestoso”, Majestade! — zombou baixinho.

47 - Senhor Túmulo: — Fazer o quê! Ele pode, não é?

— falou também baixinho, completando.

48 - Senhor Mausoléu: — É isso mesmo! — O comentário tinha sido baixo, mas fortemente carregado de um tom pejorativo o suficiente para ser ouvido.

— Não vê pela minha aparência que eu só abrigo ocupantes reconhecidamente nobres, ricos, famosos e célebres?

49 - Senhora Cova-Rasa: — Pena que nem todos sejam honestos, honrados, honrosos, honoríficos e honorários.

Estranho, não é? Todas essas qualificações começam com “h”, minúsculo!


 

Rua 2 – Rua da Soberba

1 - Lema: “A manifestação do ego, na sua forma egoísta (ausência total de humildade) cresce como o fermento e jamais se satisfaz.”.

2 - A segunda rua a ser avistada era a Rua da Soberba.

3 - Em sua esquina erguia-se um casarão de vários andares, mesmo vista de longe. Seu proprietário fazia questão de ser visto por todos. Enfurecia-se ao tomar consciência que outro edifício, um mastro ou mesmo os altos galhos de uma árvore pudessem atingir altura superior ao domo de sua mansão.

4 - Esse é outro sentimento a se manifestar na natureza humana. Desde cedo o homem traz essa semente e a desenvolve dia a dia nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade dele sobrepujar o próximo, é capaz de roubar a cena para satisfazer suas próprias vontades e interesses; engana-se quem pensa que o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

5 - A casa de esquina na Rua da Soberba gostava de fazer sombras, não para refrescar quem por ali passasse, mas para não deixar que nada, ao seu redor brilhasse ou recebesse vida. Para o morador ninguém era merecedor de ocupar a mesma posição que a sua. Acima, jamais. Visitas eram recebidas por um só motivo - “ostentação”.

6 - Enquanto isso, na Assembleia...

7 - Senhor Administrador: — Atenção, atenção...

8 - Ouviu-se um grande estrondo, o chão tremeu, o ambiente congelou... Os presentes desejaram estar ausentes...

Não se soube de onde e nem como surgiu uma figura sinistra que, aos brados, fez a sua entrada. — Como ousam realizar uma Assembleia sem a minha anuência e participação?

9 - Senhora Cova-Rasa: — Jesus Cristo! O que é isso?

10 - Senhor Mausoléu: — É a senhora Múmia, não está vendo?

11 - Senhora Cova-Rasa: — E acham que eu sou pobre! A coitada está vestindo farrapos... e está se desfazendo...

12 - Senhor Túmulo: — Incrível! Mesmo após milhares de anos Vossa Majestade continua a mesma.

13 - A múmia, inesperada por todos, mas aguardada pelo Administrador que logo foi colocando um “x”, dando por completa a lista, ao ouvir o elogio fingiu acreditar e quase se desfez em mesuras e agradecimentos.

14 - Senhora Múmia: — Obrigada, obrigada! Folgo em saber que não fui esquecida!

15 - Senhor Túmulo: — Desculpe-me, não me refiro a sua aparência externa!

16 - A múmia não “se enrolou”, fingiu não ter entendido.

17 - Senhora Cova-Rasa: — O que é que essa múmia está fazendo aqui?

18 – Senhora Múmia: — A senhora sabe com quem está falando? Que petulância a sua de me tratar dessa maneira! Como se eu fosse alguém comum!

19 - Nesse momento, o Administrador interrompe a conversa. Na vida do condomínio todas as ações são fruto da vontade e livre-arbítrio de seus moradores, salvo as que dizem respeito à manutenção e conclusão do Grande Plano do Proprietário das propriedades... Nada lhe foge ao conhecimento e poder de execução ou alteração. O Grande Plano influencia a vida de quem desperta, mas jamais pode ser alterada por quem quer que seja.

20 - Senhor Administrador: — Muito bem! Sei que não há como pôr um fim nessa discussão entre vocês. Ordeno, sentem-se.

21 - Senhora Cova-Rasa falou outra vez baixinho: — He! He! Agora eu quero ver! Toda enfaixada, como irá assentar-se?

— perguntou olhando para a Múmia.

22 - Senhor Administrador: — Sentem-se e ouçam! Até quando irão, continuadamente, agir parecendo ser o que na verdade não são? Quantas vezes foram concedidas um despertar para as suas consciências? Até quando, até quando?

23 - Senhor Túmulo: — Senhor, não entendi!

24 - Senhor Administrador: — Não entenderam porque agem como se fossem abrigo da morte que gera outros mortos quando, na verdade, são templos de Deus, abrigo da vida para a geração de vivos, não de mortos! E mesmo sendo o que não são, por que tanta discórdia, guerras e lutas? Morto gerando morto! Mortos matando mortos! Quanto tempo perdido! E o que é mais triste: “quão poucos são aqueles que, na verdade, desejaram morrer.”.

25 - Senhor Administrador: — Senhores “Mausoléus”, “Criptas”, “Jazigos”, “Túmulos”, “Sarcófagos”, “Covas-Rasas” e “Ossuários”, convido-os para serem participantes de outra Assembleia, em outro local — a Grande Assembleia Única.

26 - Senhora Cova-Rasa: — E que local seria esse?

27 - Senhor Administrador: — No “Mundo dos Vivos”. Estão todos convidados. Só um aviso, “o caminho é estreito e a porta apertada”. A Assembleia será presidida pelo Proprietário das propriedades no “Mundo dos Vivos”. E, aquele que lá chegar, será recebido com um lindo banquete.


 

Rua 3 - “Rua da Loucura”

1 - Lema: “Quando não se tem medo da morte, não sendo vivo, é sinal que a loucura já encontrou abrigo.”.

2 - A terceira rua a ser avistada era a Rua da Loucura.

3 - Em sua esquina erguia-se uma casa pouco iluminada, sinistra, disforme.

4 - Seu proprietário não fazia questão de nada. Por várias vezes ateou fogo na própria casa, alegando estar sendo perseguido pelo resto do condomínio. Não confiava em ninguém, nem em si mesmo, não sendo por consequência digno de confiança.

5 - Esse é outro sentimento a se manifestar na natureza humana. Desde cedo o homem traz essa semente e a desenvolve dia a dia, na maioria das vezes, de forma imperceptível nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade de sobrepujar o próximo, é capaz de roubar a cena deixando emanar os mais incríveis e indizíveis devaneios mentais, satisfazendo suas próprias vontades e interesses; engana-se quem pensa que o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

6 - Na casa de esquina da Rua da Loucura ouviam-se gritos ora audíveis, ora quase imperceptíveis; quem por lá demorasse ficava “encantado”, contaminado. Para o morador ninguém era menos louco que ele.

7 - Enquanto isso, na Assembleia...

8 - Senhor Túmulo: — Às vezes, desconfio que eu esteja ficando louco. Isso é normal?

9 - Senhora Cova-Rasa: — É normal, normalíssimo. Acho até que todo mundo tem o direito de cometer uma loucura de vez em quando. Afinal, quem poderia afirmar que é cem por cento normal o tempo todo?!

10 - Senhor Túmulo: — Obrigado, me sinto melhor agora. Gosto de conversar com pessoas que me dizem coisas que levantem o meu ego.

11 - Senhor Administrador: — Essa é uma dúvida na maioria das pessoas que não obtém, de imediato, respostas a algumas questões. Algumas até se negam falar sobre o que pensam, dada à natureza daquilo que lhes vem à mente.

12 - Senhor Túmulo: — Acho que aquele que tem certeza de que nunca ficou, não está e nem ficará louco é a pessoa de quem devemos tomar mais distância.

13 - Senhora Cova-Rasa: — Então a gente tem que viver isolada do mundo!

14 - Senhor Administrador: — Não exagerem. Há uma grande diferença entre as ideias absurdas, que ficam apenas nos pensamentos, e os desejos em realizá-las. Uma coisa é um pensamento ser produzido num momento emocional alterado. Outra é a constância, o retorno dos mesmos, alimentados pela maldade existente dentro da alma.

15 - Senhor Administrador: — Há loucuras que afetam apenas o corpo. Essas podem ser tratadas com remédios e reeducação por meio de conselhos e conhecimentos.

16 - Senhor Túmulo: — O Senhor pode exemplificar?

17 - Senhor Administrador: — Olhem o que as pessoas fazem com o próprio corpo em seus vícios e apetites desordenados. Deformam-se, envenenam-se e, de “senhores do corpo” que foram criados, acabam se tornando “escravos” dos mesmos prazeres aos que outrora se entregaram, sem falar nas mutilações. Por fim, não contentes com os resultados sempre acabam culpando o Criador.

18 - Senhor Administrador: — Há loucuras que afetam a alma; essas só podem ser tratadas com o despertar do espírito, com a metanoia que desencadeia mudanças radicais, além de uma manutenção diária do método.

É a “Via-crúcis” que leva à morte, não inexistência, da alma, apenas o domínio próprio. Pensem no que as pessoas permitem que lhes invada o coração, de onde procedem todas as mazelas da vida, cada pensamento faz eco com os desejos deformados, decaídos e os apetites carnais não domados. Enlouquecem e, de “senhores da alma” que foram criados, acabam se tornando “escravos” e “escravizadores” dos outros.

Por fim, não contentes com os resultados sempre acabam culpando o Criador.

19 - Senhor Administrador: — Há loucuras que afetam apenas o espírito. Essas não podem ser tratadas, precisam ser extirpadas ou culminariam em morte. Loucos são aqueles que fogem ou desprezam a verdade, cavam com as próprias mãos a sepultura. Por acaso a verdade que vocês afirmam produz vida? Suas ações refletem aquilo que vocês defendem em si mesmos ou cobram nos outros? Se o espírito recebesse o mesmo cuidado que é dado ao corpo, o despertar seria conhecido. O espírito que não desperta não está à beira da loucura, precipita-se para o abismo da morte.

20 - Senhor Túmulo: — E eu que temia um dia ir parar no hospício... descobri que ele já estava dentro de mim há muito tempo.

21 - Senhora Cova-Rasa: — Que loucura... mudei de opinião... aprendi que não posso usar meu comportamento como desculpa para chamá-lo de patologia.

22 - Senhor Administrador: — É o espírito que fará que o corpo e a alma sejam sadios.

23 - Senhor Administrador: — O desvio a que a humanidade se permitiu, resultou em desequilíbrio para ela mesma. “Quando não se mantém a saúde gera-se a doença.”. Guardadas as devidas proporções e exceções, o homem prefere se esconder nos diagnósticos psiquiátricos a assumir sua culpa e responsabilidade diante da vida, de si mesmo e do próximo.

“É muito mais fácil ir à farmácia, ao consultório ou à igreja do que encarar o espelho da alma sem maquiagens.”.

24 - Senhora Cova-Rasa: — É hora de o homem dar os verdadeiros nomes aos apelidos da alma...


 

Rua 4 - Rua do Ódio

1 - Lema: “O ciúme, prima-irmã da inveja, mola propulsora da cobiça e do ódio são combustíveis que movimentam o corpo na direção oposta ao Criador.”.

2 - A quarta rua a ser avistada era a Rua do Ódio.

3 - Em sua esquina erguia-se uma casa com muros altos, com lanças pontiagudas, arames farpados e eletrificados.

4 - Seu proprietário fazia questão de manter tudo e todos à distância.

5 - Por várias vezes “atirou” em várias direções sem se importar que isso ferisse alguém. Não se relacionava com ninguém... nem por si mesmo nutria a mínima afeição.

6 - Esse é outro sentimento a se manifestar na natureza humana. Desde cedo o homem traz essa semente e a desenvolve dia a dia, na maioria das vezes, de forma imperceptível nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade de desferir toda gama de pressões acumuladas, represadas e guardadas para esses momentos, é capaz de transbordá-las, satisfazendo suas próprias vontades e interesses. Engana-se quem pensa que o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

7 - A casa de esquina na Rua do Ódio fazia-se notar mesmo de longe e quem por lá passasse, dificilmente, ficava impune. Para o morador todos eram alvos.

8 - Enquanto isso, na Assembleia...

9 - Todos esperavam, com agonia, o momento daquela interminável “conversa paralela” terminar.

10 - Alguns dizem que “perde-se muito tempo prestando atenção na vida dos outros.”. Outros, pelo contrário, dizem que “muitos aproveitam esses momentos para chamar a atenção dos outros para que não prestem atenção na vida deles.”.

11 - Senhora Cova-Rasa: — Senhor Administrador — disse em tom imponente, parecendo estar cheia de vida...

12 - Senhor Administrador: — Obrigado senhores por me devolverem a palavra! “Palavras são como flechas, depois de atiradas cumprem seu papel, até o de perfurar o pé do próprio atirador.”.

13 - Senhora Cova-Rasa: — Perdoe-nos! Foi empolgação de nossa parte! Gostaria de perguntar qual é a diferença entre estar no Condomínio dos Mortos e no Condomínio dos Vivos?

14 – Senhor Administrador: — A diferença é que os mortos não têm consciência que estão mortos e os vivos já possuem a consciência que deixaram de ser mortos. Os mortos estão espalhados por todos os lugares do grande condomínio chamado mundo; os vivos, apesar de estarem em algum lugar, geograficamente, não são de lugar nenhum; vivem o “estado do ser”. Os mortos vivem morrendo dia a dia; os vivos, “morrendo” para viver, morrendo porque conscientemente se separam daquilo que não traz vida. Os mortos tentam fugir dessa “morte” para permanecerem no condomínio. Os vivos desejam a “morte” para permanecerem vivos. Já interiorizaram o condomínio dos vivos, neles. “Os mortos” são, involuntariamente, “libertos” em cativeiros; “os vivos” são, voluntariamente, “cativos” em liberdade.

15 - Senhora Cova-Rasa: — E como posso passar deste condomínio para o outro?

16 – Senhor Administrador: — Essa pergunta mostra que deseja possuir a “passagem” reservada para você desde que começou a “morrer, nascendo”.

17 – Senhor Administrador: — Os vivos é que são voluntariamente cativos em liberdade, esses é que terão a missão de ajudar os mortos a terem a consciência de sua ignorância, persuadindo-os a adquirirem tal passagem como relata um antigo, e ao mesmo tempo sempre presente, profeta em seu livro chamado Ezequiel, capítulo trinta e três. Leia e tomará conhecimento. Portanto, atente para o que pede, pois se fizer a escolha errada não estará entre os escolhidos.

18 – Senhor Administrador: — Vocês, às vezes, não dizem parecer ser o túmulo a aprisionar o morto, tornando-se o seu dono? Quando as vontades da alma decaída são mais fortes do que o espírito adormecido? Agora, como vivo, é o preso que se liberta do cárcere. Prestem atenção! A condição de morto para vivo é, simplesmente, uma questão de consciência e não meramente de ciência. Ciência é o acúmulo de informação para melhor se relacionar com o mundo. Consciência é o despertar da mente para se relacionar com o sagrado e permanecer no condomínio sem ser um morto com o único objetivo — falar para o vivo que ele vive como morto. “Estar” morto é a condição para “ser” vivo. Só “acorda” quem “dormente” está. A humanidade é como sementes enterradas vivas, apenas aguardando o despertar da consciência para poder brotar, romper a cova, corpo, adquirir a capacidade de crescer e gerar outros frutos, assim como um dia, também foram gerados pela árvore da Vida.

19 - Senhor Administrador: — “Há vida após a vida, perguntou o tolo? Não, não há respondeu o sábio! Esta é a sua única chance! Toda semente que, morrendo vai, vive pra não morrer jamais. Se passar para lá morto, morto viverá, mas se morrer agora, eternamente viverá.”.

20 - Senhora Cova-Rasa: — Como assim?

21 - Senhor Administrador: — Vou citar um exemplo! Não raras são as vezes quando, em ronda pelo condomínio dos mortos ouço vozes clamando, desesperadamente, as seguintes palavras: “Socorro, pelo amor de Deus, me tirem daqui... não suporto mais... sei que aqui não é o meu lugar... sei que não sou daqui... que faço agora, meu Deus? Será que nem a morte pode me aliviar deste sofrimento?”. Infelizmente, essa foi uma das almas que desejou o despertar da consciência, mas preferiu permanecer na ignorância, desprezando a passagem, a entrada que se apresentou como única saída, perdendo a chance de renascer... ficou atraída e encantada com o “Egito”, com os prazeres passageiros e ilusórios do corpo. Nada pesará sobre ela a não ser a terra e a sua própria consciência.

22 - Senhora Cova-Rasa: — E os que parecem nem se preocupar em pedir esse despertar da consciência?

23 - Senhor Administrador: — Há necessidade de resposta? Mesmo assim afirmo: “Sem sacrifício e crucificação não se chega, jamais, à ressurreição.”. Melhor seria que nunca tivesse pedido do que, pedindo, rejeitar e não aceitar aquilo que pediu, pois pensando em estar carregando “um peso morto” estaria, na verdade, sendo carregado pela vida. Portanto, se desprezar o que pedindo recebeu, perde a oportunidade de ser recebido no condomínio dos vivos.

24 - Senhora Cova-Rasa: — E como posso ser igual a um desses missionários?

25 - A plateia a essa altura se consumia em ciúmes pela avalanche de perguntas da senhora Cova-Rasa, mas ninguém ousava interromper, ou não tinham perguntas melhores, ou pergunta alguma.

26 - “Melhor dar-se por satisfeito quando alguém arrisca levantar uma questão, mesmo pela ignorância, do que não possuindo outra que a substitua, perder a oportunidade de encontrar a sabedoria.”.

27 - Senhor Administrador: — Infelizmente, muitos são os mortos que se dizem “despertos” com a única e má intenção de obter lucros, privilégios e vanglórias à custa de ovelhas que pensam em estar sob a proteção de um “bom pastor”, quando na verdade, estão sendo aprisionadas, espoliadas e devoradas por “lobos vorazes” e, isso tudo, falsamente falando em nome de Deus.

28 - Senhora Cova-Rasa: — Mas por que isso acontece? Como não se deixar enganar?

29 - Senhor Administrador: — A dificuldade está na maneira de os Mortos entenderem a essência do essencial. Eles intentam obter milagres somente para as questões que facilitem ou melhorem a sua forma de convivência e conveniência, bens para o corpo e para a alma, tais como: casa, saúde, casamento, emprego, etc. Quando, na verdade, o essencial deve ser a descoberta da essência.

30 - Senhora Cova-Rasa: — E qual é essa essência?

31 - Senhor Administrador: — É desejar saber, antes de qualquer outro pedido, qual o sentido da vida, o porquê de cada um estar aqui!

32 - Senhora Cova-Rasa: — E como não ser enganado?

33 - Senhor Administrador: — Nunca busque ou peça algo a Deus com a única intenção de obter alívio ou compensação material, sem antes descobrir quem na verdade Ele é. Ele, sendo em você lhe proporcionará o ser nEle. “Eu e o Pai viremos e faremos nele, morada”. Essa mensagem é universal, não religiosa e se propaga na Terra como as ondas de rádio. A estação receptora está em todo coração humano e sua sintonia será a intenção manifestada em ação. Havendo tal ação, mais dia, menos dia, aqui ou ali chegará ao coração aflito de todo “filho” o socorro tão esperado. Você mesmo pode ser um missionário, se assim proceder.

34 - O Administrador pede então que a senhora Cova-Rasa se aproxime da mesa diretória e, apertando-lhe a mão, entrega-lhe um papel escrito:

35 - “Passado morto: ignorância”.

36 - “Presente vivo: conhecimento”.

37 - “Futuro consciente: volta ao lar”.

38 - Os demais convocados, aproveitando o fim do longo diálogo entre os dois, voltaram aos cochichos e murmúrios, desta vez, movidos ainda por mais inveja do que antes; odiavam o silêncio a que foram submetidos pela ousadia, interesse e perspicácia da curiosa senhora Cova-Rasa.

39 - Como se tivessem combinado todos, ao mesmo tempo, levantaram ambas as mãos.

40 - — Silêncio, silêncio, ordem na casa — disse o Administrador. — Por tempo de idade, concedo a palavra ao senhor Túmulo.

41 - Senhor Túmulo: — Obrigado. Teria como obtermos alguns aplicativos, avisos, sinais ou algum meio pelo qual pudéssemos saber de que forma estamos agindo? Estamos agindo como mortos ou vivos?

42 – Anônimo: — Pela qualidade da pergunta, bem morto e esquecido de ser enterrado. A frase foi dita por entre os dentes, mas o suficiente para arrancar de todos uma escancarada e debochada gargalhada.

43 - Senhor Túmulo: — Quem me dirigiu tal ofensa?

44 - As risadas apareceram em maior grau enquanto o autor da piada se escondia.

45 - Senhor Administrador: — Continue, senhor Túmulo. Não se importe com os gracejos, se importe com o teor da pergunta.

46 - Senhor Túmulo: — Obrigado. E qual seria a senha, código, segredo ou mistério que disponibilizaria o dispositivo para a conexão com a vida?

47 - Senhor Administrador: — É uma pergunta meio hitech...

48 - Bastou isso para que outra onda de risadas irrompesse entre os presentes. No condomínio dos mortos, “uns riem porque entendem... outros riem, sem terem motivos ou saberem o porquê... riem para esconder o fato de nada entenderem”.

49 - Senhor Administrador: — Não se ofenda senhor Túmulo, não foi minha intenção ironizar ou polemizar sua pergunta. Nada melhor que uma alma sedenta de luz! Quanto me alegra poder responder a sua pergunta! Sim! Existem avisos e não são poucos. Aqui mesmo neste lugar posso apontar muitos! Quer ver?

50 - Senhora Cova-Rasa: — Desculpe-me, senhor! Antes dessa amostragem daria para facilitar o meu entendimento, não sendo somente através de palavras, já que elas poderiam ser distorcidas, manipuladas e mal-interpretadas?

51 - Senhor Administrador: — Vou facilitar então sua compreensão. Isso tem sido feito há milhares de anos e, mesmo assim, poucos são os que têm olhos para ver.

52 - Senhora Cova-Rasa: — Como é que é?

53 - Senhor Administrador: — Quantos não foram os desenhos vivos feitos num arco de tempo e que são desenhados até hoje para que a humanidade enxergue neles a verdade!

54 - Senhora Cova-Rasa: — Que espécie de desenhos?

55 - Senhor Administrador: — Começando pelos profetas, videntes, líderes espirituais, homens e mulheres comuns que receberam da vida, a vida, e dedicaram o próprio viver para transmitir o que receberam aos que ainda são o que eles um dia foram também. Quantos! E vocês ainda não os reconheceram! Isso sem falar dos desenhos na própria natureza em si, desenhados pelo Autor de todas as obras, onde nelas, Ele mesmo pode ser visto. No ar, na água, na terra, nos vegetais, nos minerais e nos animais.

56 - NEle e por Ele se manifestam e têm a sua existência sustentada. Mesmo assim, vou atender ao seu pedido e escrever duas palavras que representam a velha e a nova natureza do homem.

57 - Senhor Administrador: — Preste atenção para, em seguida, me dizer o que consegue ver.

 

 

Rua 5 - Rua da Dúvida

1 - Lema: “Quando a vida se tornar o princípio, a morte deixará de ser o fim. O vivo, pela Vida terá vencido a morte.”.

2 - A quinta rua a ser avistada era a Rua da Dúvida.

3 - Em sua esquina erguia-se uma casa que estava sempre em reforma. Já havia recebido todas as cores do arco-íris, demolida várias vezes e reerguida com novas e inovadoras formas.

4 - Seu proprietário, no entanto, continuava insatisfeito.

5 - Pedia opinião de todos, não que se importasse com elas, mas era porque não possuía a sua própria.

6 - “Creio em tudo, sem fé alguma”, repetia sempre. É a fé sem alma, morta em si mesma; oca, substantiva, absurda...

7 - Esse é outro sentimento a se manifestar na natureza humana. Desde cedo o homem traz essa semente e a desenvolve dia a dia, nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade dele transferir para outro a sua culpa ou responsabilidade, desculpa-se fugindo, para satisfazer as suas próprias vontades e interesses. Engana-se quem pensa que o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

8 - A casa de esquina na Rua da Dúvida “envolvia” quem, distraído, nela entrasse e lá ficasse.

9 - Enquanto isso, na Assembleia...

10 - Senhor Administrador: — Prestou atenção? Diga-me o que viu e qual a diferença entre elas.

11 – Senhora Cova-Rasa: — Posso ser sincera?

12 - Senhor Administrador: — Sempre!

13 - Senhora Cova-Rasa: — A primeira árvore, para mim, é como se fosse “cada um por si e Deus por todos”; todos demonstram certo pavor, aflição, temor, aparentando estarem sem vida. A segunda árvore representa um saudável corpo cheio de vida.

14 - Senhor Administrador: — Muito bem, senhora Cova-Rasa!

15 - Nesse momento a senhora Múmia interrompendo o diálogo, disse: — Com licença, pra mim parece com alguns macaquinhos. Aliás, me permitam dizer que sou adepta da teoria que afirma que todos nós descendemos dos símios.

16 - Senhor Túmulo: — Símios? — disse baixinho. — A minha família com certeza teve outra origem (sem querer ofender os macacos)!

17 - Senhor Administrador: — Cada espécie é única segundo a sua própria espécie! Todavia, todas vêm de um único ato específico! Nada do que foi feito, com naturezas diversas, deve ser misturado. Jamais gerariam algo natural. Entretanto o homem, com a capacidade científica que recebeu, sempre procurou transformar o que já estava pronto e modificar o que já havia sido criado. Sempre que assim agiu acabou gerando aberrações. Respondendo a sua pergunta, se sua origem tivesse raiz nos símios como resultado de um experimento, o próprio homem teria que existir antes de cometer tal aberração, coisa totalmente improvável!

18 - Senhor Administrador: — Agora vou dar a real explicação sobre as duas árvores:

19 - A primeira árvore contém o conhecimento do “bem” e do “mal”. Quando o Criador ordenou ao homem: “Podes comer de todas as árvores do jardim, mas não comas da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois”, “no dia que dela comerdes certamente morrerás”. Tendo o primeiro Adão desobedecido, ele e toda a humanidade passaram a ter a morte como herança e, a partir de então, houve uma separação entre o Criador e a criatura e, esta passou a ser um indivíduo na individualidade quando o certo é um indivíduo na unidade.

20 - Senhor Administrador: — Você está seguindo o raciocínio?

21 - Senhor Túmulo: — Quem? Eu, Senhor?

22 - Senhor Administrador: — E quem mais seria? Por acaso você acha que eu estou falando com o leitor deste livro?

23 - Senhor Administrador: — Você já reparou que todos os outros integrantes da natureza agem de acordo com a naturalidade de sua natureza? Somente o homem que não. Quando o segundo Adão, Jesus Cristo, foi “desenhado” aqui em puro amor, foi resgatado a unidade natural do homem para que o próprio homem fosse redimido do ato de desobediência que ocasionou a “vivência” da morte. E por que fez isso? Você deve estar se perguntando enquanto corre os olhos por estas linhas. Fê-lo porque tudo o que o criador faz é perfeito e bom e o que Ele determina se cumpre: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança.”. Portanto, o homem pelo seu livre-arbítrio tem agora a escolha entre a morte e a vida. Cristo, sendo a vida, quem nEle crer, nEle estará e Ele fará morada em todo aquele que com Ele estiver, passando assim a ser um indivíduo, na unidade, pois, cada um, individualmente, tem a opção de fazer parte do todo e esse todo é o corpo de Cristo, na Terra. Entenderam agora o porquê desta Assembleia, neste lugar?

24 - Senhora Cova-Rasa: — Entendi! Estou me sentindo um “rascunho muito maldesenhado”.

25 - Senhor Administrador: — Você tem agora o lápis e a mão para escrever o seu próprio desenho, seu viver. Voltando ao que ia dizendo ao senhor Túmulo, antes da senhora Cova-Rasa solicitar esses desenhos, vou relacionar alguns avisos que servirão de setas na encruzilhada entre a vida e a morte. Cada ser humano carrega em si, mesmo não sendo visíveis, títulos das suas ações na vida. Vamos chamar esses atos de lápides.

26 - O Administrador era eficiente ao extremo quando se tratava de ensinar.

27 - Senhor Administrador: — Constam em nossos registros de lápide dos mortos que “morreram”, as seguintes dedicatórias:

28 - “Aqui jaz um morto deitado e outro em pé, me olhando.”.

29 - ...outro, ainda, que escreveu; outro está lendo, outro está rindo e outro está morrendo.

30 - “Aqui jaz aquele que foi como uma toupeira. Se vangloriava de possuir tantas pernas que não enxergava para qual buraco elas o levavam.”.

31 - Há gente que possui tantos talentos, mas que por ser acompanhado de tamanha arrogância e confiança na sua infalibilidade, às vezes, acaba fornecendo provas contra si próprio.

32 - “Aqui jaz aquele que foi tão egoísta que o inferno está reservado todinho só para ele.”.

33 - Sem comentários...

34 - “Aqui jaz aquele que foi tão invejoso que despertou admiração até na inveja.”.

35 - Alguns alunos são tão aplicados que o professor fica com receio de “perder” o cargo.

36 - “Aqui jaz aquele que viveu uma vida tão de morto que, agora, apenas deixou de falar.”.

37 - O morto, que não se entrega à “morte”, esse está “morto” mesmo; só que dá uma de “vivo” esperando que o vivo faça isso no lugar dele.

38 - “Aqui jaz aquele que comeu, bebeu e dormiu.”.

39 - Ele trabalhou só para comer e beber. Manteve-se em pé enquanto seu corpo foi abastecido do fruto do seu trabalho, mas não teve o trabalho de preparar a reserva de alimento espiritual para quando chegasse a hora de ficar deitado.

40 - “Aqui jaz aquele que não se tocava, tinha de ser tocado.”.

41 - Tem gente que é tão inconveniente que, às vezes, somos também obrigados a sê-lo, dizendo-lhe.

42 - “Aqui jaz aquele que se cansou de descansar”. “Agora, mesmo tendo tempo, não tem mais oportunidade.”.

43 - Perdeu porque deixou de usufruir aquilo a que tinha direito. Por se entregar a um dos obstáculos que impedem a conquista de bênçãos em nossas vidas - “a preguiça”.

44 - “Aqui jaz aquele que foi como um sabonete... foi perdendo a essência com o passar do tempo.”.

45 - Quantos foram, quantos são e quantos serão como sabonetes? Perder a essência é perder a vida, é apagar a luz, é substituir o aroma agradável pelo odor putrefato. É morrer tentando alimentar o insaciável ego.

46 - “Aqui jaz aquele que sofreu, correu e fez tanto pelos outros que quando foi ver não deu tempo de fazer nada por si mesmo.”.

47 - Ser prestativo sem o conhecimento da verdade é praticar a caridade horizontal pensando ser a vertical. A horizontal refere-se ao visível, a vertical ao invisível. O ego nos distrai do objetivo principal que é acordar para a vida, e nos mantêm adormecidos em nós mesmos. O ego necessita de reconhecimento e aplausos.

48 - “Aqui jaz aquele que pensando em fazer tudo pelo filho acabou ficando escravo de um inútil.”.

49 - Há gente que na ânsia de proporcionar o bem-estar ao filho acaba por criar condições, muitas vezes, propícias para que ele desenvolva uma personalidade totalmente dependente de quem ao mesmo tempo se torna escravo.

50 - “Aqui jaz aquele que achou que poderia alcançar a Luz, se espiritualizando por osmose.”.

51 - São poucas as pessoas com vontade de serem despertadas e adquirirem vida. Ao se depararem com as dificuldades acabam desistindo do caminho estreito e da porta apertada. Ao invés disso acreditam que, por estarem ao lado ou perto de quem já está no caminho, poderão passar pela ressurreição.

52 - “Aqui jaz aquele que não teve nenhum inimigo, a não ser ele mesmo.”.

53 - Aquele que diz que só teve amigos neste mundo se engana e engana aos outros, pois, certamente, não conheceu a si próprio ou se esqueceu de que até Aquele que é perfeito não só teve inimigos, como foi executado pelos tais, mesmo eles não sabendo quem Ele era.

54 - “Aqui jaz aquele que “não sentiu falta” da falta que ele tinha, por isso morreu em falta.”.

55 - Há gente que não sabe que falta algo em si mesma. Pensa que o que ele não tem poderá obter tirando, comprando ou ganhando do mundo quando, na verdade, tudo o que ele obtiver do mundo, nunca preencherá a presença sob o véu do vazio que se aloja em seu coração. A falta não é de algo, e sim falta da consciência de que “alguém” está dentro dele.

56 - “Aqui jaz aquela pessoa que se parecia com ela mesma, mas os outros pensavam que era outra pessoa.”.

57 - Certas pessoas aparentam ser uma coisa quando na realidade é outra e quando a realidade é revelada acabam acreditando que a outra é que era a verdadeira.

58 - “Aqui jaz aquele que fez questão de ajudar a acabar com tudo que ele não ajudou a construir.”.

59 - Há gente que ajuda a acabar com uma empresa, dando desfalque. Há gente que ajuda a acabar com um casamento, semeando intrigas. Há gente que ajuda a acabar com uma vida, matando-a. Há gente que ajuda a acabar com a esperança, destruindo um plano. Há gente que ajuda a acabar...

60 - São mortos ocasionando mortes...

61 - “Aqui jaz aquele que preferiu não ser o preferido, e sim ter a preferência.”.

62 – Querer ter a preferência é ter o orgulho manifesto na “satisfação do ego”. “Tudo pra mim”, “primeiro eu”, “todo mérito é meu”... Ser o preferido é ter a satisfação de ter sido a opção de uma escolha. “E que privilégio é ser o escolhido de Deus!”.

63 - “Aqui jaz aquele que usava perfume, mas era como se não usasse.”.

64 - Quantos são os homens que passam a vida inteira frequentando suas congregações e tendo suas crenças dizendo que são isso ou aquilo, enquanto estão sob a proteção física de suas igrejas. Mas quando ali não estão, apesar da boca dizer uma coisa, o corpo faz outra. Perfume agradável em corpo putrefato.

65 - “Aqui jaz aquele que foi tão orgulhoso que não falava nem consigo mesmo.”.

66 - Não falava com ele mesmo, mas falava dele mesmo.

Não falava com ele mesmo, mas falava daquele que não falava dele; não falava com ele mesmo, mas falava, falava e falava de tudo o que ele era, menos daquilo que não era.

67 - “Aqui jaz aquele que fazia de conta que tudo era uma fantasia. Agora, neste lugar, só existe o camarim, sem o teatro.”.

68 - Quando se fantasia tudo, o mundo passa a ser um grande teatro. Vive-se representando; faz-se de conta que é filho, pai, marido, estudante, profissional, amigo... O último ato é representado fora do palco. Passa-se no camarim diante do espelho para que seja tirada toda a maquiagem. A fantasia virou realidade.

69 - “Aqui jaz aquele que não teve tempo de providenciar sua própria recepção e hoje é o convidado.”.

70 - Não sabemos quando será o “hoje” de cada um de nós, mas temos a oportunidade de ser um convidado prudente que se preparou para a sua própria recepção.

71 - “Aqui jaz aquele que enxergava, mas era como cego; ouvia, mas era como surdo; agora é morto de fato, como sempre foi.”.

72 - Ser cego para as coisas espirituais e surdo para as vozes que não saem de lábios que alimentam, mas alimentam-se do mal, é como estar vivendo a morte.

73 - “Aqui jaz aquele que por falta de conhecimento pediu socorro ao carro fúnebre pensando ser uma ambulância.”.

74 - Infelizmente muitos são os guias-cegos a guiar muitos outros cegos, principalmente, os líderes religiosos que mantêm os seus fiéis mortos em estado de tanoplaxia, ou seja, embalsamamento. Há também os casos de taxidermia, em que se mata a vítima, retira-lhe tudo que está dentro, preservando apenas o exterior, como troféu.

75 - “Aqui jaz aquele que foi tão ignorante que desejou ignorar a consciência.”.

76 - Não ignore isso...

77 - “Aqui jaz aquele que foi um grande líder... de boiada, manada e matilha.”.

78 - Boiada porque fornecem pasto suficiente para manter bois e vacas em currais, sem queixumes. Manada porque os cavalos, apesar de darem coices, permitem ser cavalgados, domados. Matilha porque os lobos vorazes perseguem e devoram os que não fazem parte desses “rebanhos”. Assim garantem a permanência do equilíbrio do desequilíbrio de seu território. Equilíbrio do desequilíbrio porque são tratados como tais. Na verdade tais ovelhas são homens e mulheres de uma única raça.

79 - “Aqui jaz aquele que resgatou tanto do resgatável que ambos ficaram sem serem resgatados.”.

80 - Certas pessoas, não tão certas assim, agem como sendo grileiros espirituais porque vendem o que não lhes pertence; agem como se tivessem autorização do Proprietário das propriedades para venderem o “céu”. Os que “não vendem” “cobram pedágio”.  Tais pessoas têm como único objetivo roubar, sob o véu da espontaneidade, os bens pelos quais supostamente “tiram” em troca, os males da vida, ocultando assim, do resgatável, a seguinte verdade - “O único negociador com o Proprietário das propriedades é ninguém além dele mesmo como uma oferta viva”. A oferta real é ofertar-se para a vida. É conscientizar-se “de que não dorme na luz e enxerga nas trevas”, mas “enxerga na luz e dorme para as trevas”, o que faz dele um resgatado.

81 - Agora vou relacionar algumas lápides de vivos que também “morreram” e, por último lhe direi o código, a senha e o dispositivo para a conexão com a vida.

82 - Senhor Administrador: — Constam em nossos registros de lápides de vivos que “morreram”, as seguintes dedicatórias:

83 - “Aqui não jaz aquele que só se deu conta quando teve consciência que precisava prestar contas.”.

84 - É uma grande bênção quando temos tempo de pôr em prática - “Perdoa as nossas ofensas assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido.”.

85 - “Aqui não jaz aquele que não usava perfume, mas era como se usasse.”.

86 - Feliz aquele que traz em si a graça de exalar o perfume natural de sua essência, embora seja possível e praticável participar de uma congregação, não para aprender, e sim para relembrar o que já sabia. Para esse basta apenas retirar a tampa para que o frasco perfume.

87 - “Aqui não jaz aquele que não temeu a morte porque já havia “morrido” antes de morrer.”.

88 - A ressurreição se inicia enquanto o ser ainda existe neste mundo. Ela mata o germe que devora o morto. O morto começou a ser devorado assim que nasceu, isso é, já nasce morrendo. Existir é ter a garantia da validade (a existência) sem o prazo da validade da garantia. Não se sabe quando, mas sabe-se que morrerá, pois todo dia é um dia a menos na garantia da validade. Se antes de vencer a validade da garantia o morto tiver ganhado a sua ressurreição, não sofrerá mais a invalidação a que foi sujeito pela morte.

89 - “Aqui não jaz aquele que não temeu perder aquilo que já não tinha; morreu sem deixar de viver.”.

90 - O vivo não possui mais a morte, por isso não teme enfrentá-la.

91 - “Aqui não jaz aquele para quem esta lápide não faz sentido, ele sempre viverá.”.

92 - Ele poderá ser esquecido, enterrado, embalsamado ou cremado. Não fará diferença alguma, pois o vivo já não vive a sua vestimenta, apenas a teve para que fosse mantido o tempo necessário para o seu aproveitamento, e não para se aproveitar.

93 - “Aqui não jaz aquele de quem não me atrevo a falar... simplesmente repouse sobre ele a mesma paz que ele me permite ter.”.

94 - O vivo, ao morrer, dele não se tem muito que falar a não ser quando aquele que fala ainda não é vivo.

95 - “Aqui jaz o fim da corrida maluca, chegou só o veículo.”.

96 - Chegou totalmente “danificado” porque o motorista não tinha “carta de habilitação” ou o veículo ficou o tempo todo “nas mãos de terceiros” quando o certo seria deixar nas mãos do “segundo”. Daquele que disse: “Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.”.

97 - Nesse exato momento, entrou o senhor Pacífico, o encarregado, de quem partiu o pedido de convocação da Assembleia, e achou por bem comunicar uma informação de urgência:

98 - Senhor Pacífico: — Senhor, foi deixado no condomínio um morto sem identificação! Dizem que ele já foi um homem muito rico e famoso, mas acabou ficando na miséria.

99 - Senhor Administrador: — Senhora Cova-Rasa, por gentileza...

100 - Senhora Cova-Rasa: — Já sei, quando não se tem “onde cair morto”, sobra pra mim. Posso sugerir uma ideia?

101 - Senhor Administrador: — Diga.

102 - Senhora Cova-Rasa: — Façamos uma “vaquinha” e o enviamos para um cemitério cinco estrelas?

103 - Senhor Túmulo: — Isso que é tratamento VIP! — disse baixinho fazendo referência à senhora Cova-Rasa.

104 - Senhor Administrador: — A senhora não acha sua postura estranha?

105 - Senhora Cova-Rasa: — Sabe o que é Senhor? Sempre fiquei calada, mas agora vou abrir a cova, perdão, a boca! É o seguinte: quando chegam aqui, sendo ex-qualquer coisa, carregam em si mesmos a sua causa-mortis, isso é, chegam infestados de vermes de difícil digestão! Tanto é verdade que chego a passar mal!

Além dos gases, tenho ânsia de vômito, muita dor de cabeça e demoro a recuperar-me.

106 - Senhor Administrador: — Mas que vermes são esses?

107 - Senhora Cova-Rasa: — O verme da raiva, da frustração, da revolta, do orgulho, da vaidade, da soberba, do ódio, da desilusão, mil coisas... Quero deixar bem claro que não tenho nenhuma aversão ao morto, e sim ao que ele, apesar de “morto”, ainda traz dentro de si.

 

 

Rua 6 – Rua da Luxúria

1 - Lema: “O vício de praticar a satisfação dos desejos da carne, além de comprometer quem o pratica, leva o homem a se manter um prisioneiro de sua própria prática.”.

2 - A sexta rua a ser avistada era a Rua da Luxúria.

3 - Em sua esquina erguia-se uma casa com portas e janelas abertas o tempo todo. Não era um convite de boas-vindas, era um velado convite à vida boa, cuja gratuidade e bondade tinham ao fim, um alto preço.

4 - As paredes eram grossas por fora para esconder o que dentro era prazeroso e se fazia questão de ser exibido. Uma vez lá, nenhuma parede era encontrada. Todos os obstáculos tinham sido tirados facilitando os movimentos que longe da vista do dono da casa iriam ser praticados. Valia tudo... e nada tinha valor; era ornamentada com réplicas dos mais preciosos objetos e joias de muito valor. Qualquer um podia se declarar dono sem saber que ao possuí-la, de senhor tornava-se um escravo, desapropriado, destituído, roubado...

5 - Já havia recebido muitos hóspedes... do mais rico e abastado ao mais humilde de posses. A intenção do espólio era de cunho material, porém para quem lá deixava seus bens era furtado muito mais na alma do que no bolso.

6 - Havia muito mais quartos escondidos no subsolo que no plano térreo que era visível. Pelos vários corredores e labirintos o passado, presente e futuro se perdiam. Poucos fugiam, escapavam... o cheiro da carne os denunciava quando em algum momento de lucidez quedavam-se arrependidos. Se permanecessem, a casa, novamente, os devoraria pedaço a pedaço sem misericórdia, cobrando o preço “acordado” daquele que em seus braços dormiu...

7 - Era uma casa faminta, despudoradamente insaciável...

8 - “Teve muitos sem possuir nenhum”.

9 - Esse é outro sentimento a se manifestar na natureza humana. Desde cedo o homem traz essa semente e a desenvolve dia a dia, nas interações familiares e sociais;

Onde houver terra fértil e a oportunidade dele saciar, abeberar, dessedentar aquilo que satisfaz suas próprias vontades e interesses, com ou sem raciocínio, mergulha até o último grão, a última gota. Engana-se quem pensa que o mais inocente infante não tem tal poder de manipulação.

10 - Enquanto isso, na Assembleia...

11 - O Administrador pensando em ser a hora certa para entrar em outro assunto que queria ensinar disse:

— Parafraseando os muitos filósofos que passaram por este condomínio quero aconselhar homens e mulheres deste mundo das sombras para que não sofram mais que o necessário a que estão expostos, neste lugar!

12 – Mulheres! Na verdade vos digo: Não depreciem e nem desprezem o seu solo sagrado, pelo contrário, preservem-no não permitindo que sementes da morte lhes sejam semeadas.

13 - Seus ventres foram feitos para gerarem sementes sadias e férteis, “vivos”, e não “mortos”.

14 - Homens! Não desperdicem suas santas sementes em solo infértil para produção de vidas ou serão progenitores de uma prole que já nasce “morta”! Enquanto isso ocorrer, a humanidade sempre irá correr atrás da lei e não da Graça. E, aquela, acompanha esta. A lei está para o visível, assim como a Graça está para o invisível. O que é do visível, se aprende. O que é do invisível, se recorda e aplica-se.

15 - O que se aprende depende do mestre e do aluno. O que se recorda já está no indivíduo e o que está no indivíduo abarca aquilo que se aprende.

16 - Portanto, se assim não for, será como tatear na escuridão sempre tentando achar os culpados pela situação do mundo e exigindo soluções para a vida, quando as ações foram feitas na morte. E o que é pior, acusam o Criador pelo que eles mesmos são responsáveis.

17 - Agora irei falar sobre o código, a senha e o dispositivo para a conexão com a vida.

18 - “A carne e o sangue estão para a genética do corpo visível, assim como a herança invisível está para a alma e o espírito”.

“As doenças, defeitos, sinais, beleza e saúde são transmitidos pela genética, associação entre dois corpos distintos, pai e mãe, para a formação de um novo ser, o filho.”. “O código genético dos pais determinará os traços físicos do filho, ou seja, a cor da pele, dos olhos, etc.”. “Quando há alguma dúvida quanto à legitimidade do filho faz-se um exame de DNA, no pai e no filho.”.

19 - “A ciência desenvolveu-se a ponto de descobrir a cura para vários tipos de doenças.”. A célula-tronco tem sido a resposta para a cura de várias doenças tidas, até então, como incuráveis. No entanto, o tratamento consiste de algumas etapas arriscadas:

a- Há necessidade de se encontrar um doador geneticamente compatível com o paciente; se portar qualquer doença não apresentada no período da doação, essa, futuramente, se manifestará no receptor - o paciente;

b- O paciente recebe por alguns dias o tratamento quimioterápico para deixá-lo em um estado o mais próximo possível da morte, isso é, o seu sistema imunológico fica destruído, eliminado. Nenhum vírus ou bactéria deve ser detectado para que o risco de haver rejeição seja o mínimo possível. Só então o paciente recebe o transplante.

20 - “Assim é também com o invisível, no homem.”. “A única diferença é que todos os homens são, geneticamente, filhos de um único 'Pai'.”. Quem tem o direito à herança sempre será aquele que aceitar “o modo de filiação”, tornando-se filho. O Pai sabe que é o pai e coloca tudo à disposição do filho, mas quem ainda não passou pela experiência do novo nascimento, além de não ter consciência “de quem perdeu de ser”, perde o direito de ser chamado pelo Pai, de filho. A posse da herança é a vida eterna, no mundo dos vivos.

21 – Para um transplante de medula ser bem-sucedido todo sistema de defesa do organismo do paciente deve ser eliminado (quimio).

Da mesma maneira todo sistema de crenças e religiosidades do “morto” também precisa ser eliminado para só, então, a célula-tronco, Cristo, poder ser aceito sem risco de rejeição (os “ismos”: religião, denominação, filosofias rejeitam as verdades do “Espírito”).

22 - Enquanto isso...

23 – Milhares de pessoas liam um livro. Em casa, no escritório, no campo, na praia, indo ou voltando do trabalho. Pessoas como você! Eu? Sim, você mesmo!

24 – Uns liam porque gostaram ou acharam interessante o título; liam porque gostavam de ler tudo que lhes vinham à mão; ou porque foram presenteados; porque procuravam respostas; porque estavam sedentas, famintas da verdade ou até mesmo não saberiam explicar bem o motivo. Algumas se assustaram com a repentina troca: antes estavam dentro de um fictício condomínio. De repente todos do condomínio entravam em sua história real e de leitor passaram a ser participantes de um enredo... ou seria a continuidade da sua realidade sendo que a leitura apenas o fez despertar?

25 - Seria você um dos poucos que resolveriam não visitar as três ruas finais?

26 – Você poderia até abandonar a leitura, jamais a história. Você é a história...

27 – Pronto para a caminhada? Todos no condomínio aguardam sua decisão!


 

Rua 7 - Rua da Herança

1 - Lema: “Nem todos que têm direito a uma herança se tornam possuidores desse benefício.”.

2 - A Rua da Herança não tem esquinas.

3 - Na Rua da Herança só há uma casa.

4 - Dentro da casa há muitos lugares.

5 - Nesses lugares cabem todos... caberiam até os que ficaram de fora.

6 - Não há preço para compra, mas há oferta, doação.

7 - Ninguém conquista um lugar, mesmo assim, por terem sido conquistados pelo Proprietário do lugar recebe cada um a sua parte, o seu quinhão.

8 - Seus ocupantes não recebem após a morte, e sim em

vida...

9 - Não é preciso morrer para receber; basta renascer...

10 - Nada se leva para lá, pois a suficiência ali reina...

11 - Na casa da Rua da Herança não é preciso ter o mesmo sangue de nascimento, entretanto todos lá estarão por causa do mesmo sangue de um só que por todos morreu.

12 - É uma rua fácil de ser achada por aqueles que desejam encontrá-la.

13 - Desde cedo ou no último instante é possível receber essa semente e, havendo tempo, desenvolvê-la dia a dia nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade de compartilhar com os incapazes satisfazendo-lhes as necessidades teremos cumprido o plano para o qual fomos chamados. Engana-se quem pensa que o mais culpado dos homens seja incapaz de receber e manifestar tal poder.

14 - A casa na Rua da Herança não tem vizinhos; todos, sendo família, compõem o mesmo espaço.

15 - Todo morador, outrora indigno, passou a ser merecedor sem que para isso precisasse ofertar algum bem, já que tudo havia sido, desde o início, doado por Aquele que a cada um chamou.

16 - Não se recebem visitas... todos fazem parte dali...

17 - Tudo é festa...

18 - Não há porta de saída, ninguém jamais desejaria abandonar o local...

19 - Enquanto isso...

20 - Que bom que você resolveu chegar até aqui...

21 - De volta à Assembleia...

22 - No mundo dos mortos sempre há ações coletivas na justiça para a obtenção de um benefício. Na justiça humana, a partir da primeira causa ganha, todos os outros passam a ter o mesmo direito, não a posse. Esta se dá a partir do momento que for reivindicada. Na justiça divina, o “segundo Adão”, Jesus, O Cristo ganhou para todos os homens o direito para que os mesmos, tornando-se “vivos”, passem a ser filhos legítimos do Pai, a partir do momento do renascimento.

23 - Os mortos possuem a possibilidade do direito, não da posse, enquanto permanecerem “mortos” e ilegítimos.

24 - A célula-tronco espiritual foi a primeira vitória proporcionada ao mundo. Essa célula passou a ser o código, a senha e o dispositivo para a conexão com a vida, isso é, a posse do direito à herança do Pai. Essa célula está no Filho, o Eleito. Ele é: a “célula-tronco”, o “código secreto” do Pai, enquanto a fé ativa é a “senha”. A consciência pela razão, e não pelo intelecto, é o dispositivo disponível.

25 - Senhor Túmulo: — Mas isso eu já sei e, no entanto, continuo “morto”.

26 - Senhor Administrador: — Isso porque seu conhecimento é apenas intelectual e não espiritual. O intelecto está para o morto, assim como o razão está para o vivo. O que está para o morto é da “carne” e o que está para o vivo é do “espírito”. A dificuldade toda está no fato de “ter sido aplicada uma vacina antiFilho” em toda a humanidade!

27 - Senhor Túmulo: — Como é que é? Explique-nos melhor e bem devagar!

28 - Senhor Administrador: — Muitas religiões falam em nome do Filho, O Eleito! Falam mais do nome do que da pessoa “que se chama pelo Nome”. O que Ele fez tem a ver com o lado humano dEle e não o que Ele foi e sempre será.

Estão mais preocupados em mostrar a vida de um personagem do que O personagem da Vida.

Os milagres que Ele fez, Ele mesmo disse que outros fariam, e maiores ainda.

E, quem como Ele se tornar receberá o que Ele recebeu, fará o que Ele fez e será amado pelo Pai ganhando a herança do Pai, a verdadeira Paz, a Vida eterna.

29 – Sendo o Pai o dono de tudo e de todos, então o que o homem, conscientemente, poderia oferecer-lhe?

30 – Entre tudo o que pode oferecer, duas são agradáveis a Ele:

31 – Ações de graça e obediência; que a Sua vontade se cumpra.


 

Rua 8 - Rua da Justiça

1  -  Lema: “Todos os dias temos oportunidade de ouvir  o  que  nos  é  'necessário'  e  calarmo-nos  para  o 'desnecessário'”.

2 - A Rua da Justiça é uma rua plana...

3 - É uma rua reta...

4 - É uma rua espaçosa...

5 - É uma rua iluminada...

6 - É uma rua fácil de achar...

7 - Na Rua da Justiça há um palácio.

8 - No palácio todos são recebidos pelo próprio Rei.

9 - No palácio todos são ouvidos...

10 - No palácio todos têm seus direitos respeitados...

11 - No palácio uma palavra depois de pronunciada vira Lei...

12 - No palácio não há engano... só os não-confessos, são julgados...

13 - No palácio todos estão em casa, em paz.

14 - No palácio cabem todos; ninguém precisa ficar de

fora.

15 - Desde cedo ou no último instante é possível receber essa semente e, havendo tempo, desenvolvê-la dia a dia nas interações familiares e sociais; onde houver terra fértil e a oportunidade de compartilhar com os injustiçados, defender suas queixas e rogos o homem terá cumprido o plano para o qual foi chamado. Engana-se quem pensa que o maior contraventor entre os homens seja incapaz de receber e manifestar tal poder.

16 - No palácio, todo morador, outrora réu, passa a ser inocente sem que para isso precise pagar advogado, já que isso desde o início foi providenciado por Aquele que a cada um chamou.

17 - Enquanto isso, na Assembleia...

18 - Senhor Administrador: — Senhor Jazigo, observei que o senhor ficou o tempo todo calado. Alguma razão em especial?

19 - Senhor Jazigo: — Até que enfim fui notado! Pensei que havia sido excluído da importância que tenho para uma insignificância que não mereço...

20 - Senhora Cova-Rasa: — Duas palavras que rimam com arrogância...

21 - Senhor Mausoléu: — Ou implicância...

22 - Senhor Túmulo: — Ou petulância...

23 - Senhor Mausoléu: — Ou santa ignorância...

24 - Senhora Cova-Rasa: — Rima e língua afiada, nós temos em abundância...

25 - Senhor Administrador: — Ordem, ordem! Por favor, senhor Jazigo, queira terminar seu raciocínio antes que alguém diga outra discrepância!

26 - Senhor Jazigo: — Estou entre os tradicionais neste condomínio. Abrigo, dois, quatro, seis e até mais ocupantes de uma só vez. Não sou pouca coisa.

27 - Senhor Mausoléu: — Afinal, qual é a sua reclamação?

28 - Senhor Jazigo: — Não quero reclamar de nada... apenas quero poder expressar o meu direito de pronunciamento e pedir mais distanciamento entre mim e a família “Ossuário”.

29 - Foi o bastante para o senhor Ossuário esbravejar.

30 - Senhor Ossuário: — Quero convocar a militância...

31  -  Senhor  Jazigo:  —  Mais  rima?  Não, por favor...

prefiro retirar meu pedido...

32 - Senhor Ossuário: — Todos aqui se julgam superiores a minha família. Será pelo fato de sermos obrigados a ficar com o que não tem mais jeito depois que já foi dado “um jeito”? Se observarem bem verão que as urnas crematórias, nossos parentes próximos são as únicas que ficam expostas, são levadas para casa, e as únicas carregadas bem apertadas no peito, com muito cuidado. Somos também os únicos que ficam na vertical permitindo ao morto pensar que ainda vive! Armazenamos o que o tempo não teve tempo de transformar em pó!

33 - Senhor Administrador: — Vamos voltar ao tema, senhores... Senhora Cripta, a Assembleia está no final, qual é o seu pronunciamento?

34 - Senhora Cripta: — Desculpem-me o silêncio, é que não estava “me encontrando”.

35 - Senhor Túmulo: — Mas, afinal, o que é uma cripta?

36 - Senhor Administrador: — Uma cripta, nesse caso, é um “eu” que não admitiu deixar de ser “o que não deveria ser” e passou a parecer “ser” o que jamais deveria “exibir” ser, ostentando para outros que também não são. Acabam, com isso, revelando o vazio da alma e a podridão do espírito de seu “ocupante”.

37 - Senhor Túmulo: — Já pensou essa criatura se candidatar e vencer? Um sujeito qualquer “eleito” “roubando e matando o tempo” dos eleitores.

38 - Senhor Administrador: — Silêncio! Senhor Túmulo, o senhor já falou o suficiente! Senhora Cripta prossiga, por favor!

39 - Senhora Cripta: — Como eu ia dizendo estou aqui só para marcar presença, pois nem sabia que tinha sido convocada. Espero não ter perdido nada de interessante.

40 - Senhor Administrador: — Bem, durante “o tempo que aqui estava” perdeu de ganhar conhecimento e entendimento para não ficar mais “perdida”.

41 - Senhora Cripta: — Não entendi...

42 - Senhor Administrador: — Viu só? A senhora confirmou o que acabei de dizer. Perdida no seu mundo, perdida no seu espaço.

43 - Senhora Cripta: — Meu Deus, que dura! Era melhor eu não ter vindo.

44 - Senhor Administrador: — Continua mais perdida ainda! Sua presença foi solicitada, não por sua vontade, mas pela minha, em lhe dar a oportunidade de obter a experiência maior, o conhecimento. Vejo que ainda não toquei seu coração! Mas parece que feri o seu ego, não foi?

45 - Senhor Administrador: — Para não ser injusto, às vezes, é preciso ouvir, justamente, o que não se justifica. Tudo pode vir a ser justificado. O que não exclui o fato de que cada um que assim age acabe sendo juiz de si próprio. Dou por encerrada esta Assembleia. Assinem a ata de reunião. Quem não assinar terá, desde já, seu nome riscado do Livro da Vida.




Rua 9 - Rua do Julgamento

1 - Lema: “Os vivos foram declarados inocentes e 'culpados' pela 'escolha' correta.”.

2 - A Rua do Julgamento é a última das ruas.

3 - Na Rua do Julgamento não há uma casa sequer.

4 - Pela Rua do Julgamento só caminha uma pessoa de cada vez.

5 - Não há a mínima possibilidade de alguém ocupar o lugar do outro, por engano ou vontade própria.

6 - O Único que fez isso fez por todos, voluntariamente. Foi, suficientemente, capaz e, mesmo sendo o maior ofendido, concedeu perdão perpétuo a todos os que arrependidos confessaram e abandonaram suas culpas.

7 - Na Rua do Julgamento há uma fornalha, uma balança e duas portas, uma em cada calçada.

8 - Todos que ali chegam se despem e lançam suas roupas no fogo. Havendo alguma coisa que não queime é colocado em um dos pratos da balança que, após pesada, é entregue de volta ao seu possuidor; este então é convidado a atravessar a rua em direção à porta direita.

9 - Não havendo alguma coisa que subsista ao fogo, aquele que foi despido passa pela balança e é convidado a atravessar a rua em direção à porta direita ou à porta esquerda.

10 - Da Rua do Julgamento ninguém se esquiva.

11 - Para essa rua todos convergem, uma única vez.

12 - De lá nenhum atalho é tomado.

13 - De lá nenhum outro caminho é encontrado.

14 - Lá, todo destino está traçado, selado pelos passos do próprio caminhante.

15 - Ninguém é sentenciado como culpado injustamente.

16 - Cada condenado tem consciência da sentença que recebe.

17 - É a última instância, não há trono ou ser superior a recorrer ou apelar.

18 - Cada um recebe a sua parte, o seu quinhão.

19 - Os condenados não recebem por estarem vivos, e sim por permanecerem mortos...

20 - Nada se leva após o veredicto a não ser a própria consciência, pois o destino está traçado.

21 - Enquanto isso, na Assembleia...

22 - Senhora Cova-Rasa: — Será que estamos mesmo vivendo essa vida, neste condomínio, ou é alguma manipulação do escritor querendo nos condenar?

23 - Senhor Túmulo: — Ou estamos usando isso como desculpa para fugir da grande decisão que cabe a cada um de nós?




Rua 10 - Rua do Banquete

1 - A Rua do Banquete não faz parte do condomínio.

2 - Foi removida desde a primeira morte.

3 - Faz parte do infinito reino do Proprietário das propriedades.

4 - Em nenhum outro reino há tantas ruas como ali.

5 - Por mais que alguém ande, apesar de jamais se cansar, chegará ao fim, pois, fim ali não há, nem periferia... por onde os pés pisam é sempre o centro do reino.

6 - Não é possível vê-lo com olhos naturais, e os que viram da forma que viram não souberam traduzir sua forma, beleza, riqueza e esplendor.

7 - Houve um a quem foi dada a honra e incumbência de revelar o que vislumbrou e, mesmo assim, o fez de forma limitada, já que o ilimitado é indizível.

8 - O vidente do condomínio dos vivos foi levado para esse reino em espírito e lá chegando ouviu uma voz como de um trovão com quem teve o seguinte diálogo.

9 - “Eu sou a porta”.

10 - Vidente: — Como posso ter acesso ao reino?

11 - “Você já recebeu a senha de entrada”. “Basta pronunciá-la e a porta se abrirá”.

12 - Imediatamente veio a sua mente a Palavra certa, a chave que abre a Porta que ninguém, sem ela, pode abrir. A chave da conexão entre o coração da Porta e de seu Porteiro com o coração de quem entra. Ambas foram ligadas há muito tempo. A chave que não pode ser copiada, adulterada, pois não é física, perecível, comercializada.

13 - E levantando os olhos ouviu a própria Porta que também é o Porteiro convidando e dizendo:

14 - “Vinde bendito de meu Pai, possuí o Reino que por herança já está preparado, desde sempre.”.

15 - E “aquele que olhava” “entrou” e “começou a ver” o que estava reservado a todos no condomínio dos vivos e quantos haviam feito pacto com o Proprietário das propriedades e, pela fé, aguardavam fiéis o dia de entrar no Reino.

16 - Enquanto isso, no condomínio dos mortos alguém continuava a ler o livro...

17 - Leu até seu final deparando-se com algumas perguntas:

18 - Hoje é o dia da decisão! Que resposta você dará?

19 - Você já está consciente?

20 - Precaveu-se, prudentemente, adquirindo sua passagem antecipadamente?

21 - Seu passaporte e visto de entrada estão em dia?

22 - Você tem estado sedento por esse encontro?

23 - Se você fosse chamado nesse momento responderia: “Estou pronto”?

24 - Eu a quem foi dada a responsabilidade de escrever espero com toda a minha alma que sim.

25 - Olhe por um instante a figura na capa frontal do livro. Há uma lápide vazia! Ela é sua! Que inscrição você escreverá nela? “Aqui jaz” ou “Aqui não jaz”? Se a resposta for a segunda será sinal de que apenas o seu corpo físico repousará ali!

26 - Há um banquete preparado para você, não falte à chamada!

27 - Nós que aqui já estamos por vocês esperamos. Encontrar-nos-emos em breve...

28 - ...“se Deus quiser” e se você disser sim, renascer.

29 - Você que ainda está no tempo aproveite a oportunidade hoje, para um dia fazer parte aqui, no não-tempo, conosco, do tempo eterno como um dos escolhidos.

Decidindo sim a esse convite você estará livre do julgamento junto aos que foram imprudentes e insensatos deixando-se serem pegos de surpresa com a inesperada chegada do Proprietário das propriedades.

30 - Ele dirá às ovelhas a Sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai para herdar o Reino preparado para vós desde a criação do mundo.”.

31 - Aos que estiverem a Sua esquerda dirá: “Afastai-vos de mim, malditos para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos.”.

32 - Quem ouvir e aceitar este convite não sofrerá tal condenação.

33 - Ainda há tempo de participar deste banquete, se é que você já não está aqui conosco!

Pão do Céu

Mensagem: Clique aqui

TV ONLINE

Lançamento Audio-Livro

Peça pelo telefone:

(11) 9.5076-3640

ou pelo email:

prdirceu@yahoo.com.br

Se preferir, leia:

Tradutor